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Outras Curiosidades





Sonho de Taxista

O meu trabalho é nas ruas.
Todas as esquinas já dobrei, todas as praças e avenidas já percorri.
Os maus cruzamentos, conheço todos.
Da cidade, o brilho de todas as luzes já avistei.
Com pessoas de todas as profissões, todas as cores, todas as crenças, todas as vestes, já papeei.
Já vi riquezas em pobres.
Já vi pobreza em ricos.
Confissões tantas ouvi.
Conselhos, muitos dei e outros tantos recebi.
Palacetes já visitei.
Em tantas favelas já entrei...
Que quase nada mais me assusta.
Dos semáforos, conheço até o tempo deles abrirem.
Sei qual o mais verde, e quando o vermelho é mais vermelho.
Amarelinhos e marronzinhos, já cruzei com todos.
De quantas multas destes já me esquivei, nem sei.
Nos acidentes, em quase todos estou lá no meio, resgatando ou aplaudindo o trabalho do resgate.
190, quantas vezes já disquei.
No trânsito, quantos já xinguei. Tantos nomes também já levei, que nem me importo mais.
Finjo-me de surdo, deixo pra lá.
Não sou de São Paulo, mas meu nome é o de São Paulo. São Paulo é meu mundo, nem gosto de viajar.
Meu passeio é em casa, quando deito no sofá. As crianças em barulho pela casa...
Em casa há um cheiro de comida que não sinto pelas ruas, enchendo o ar.
Bermudas largas, pés descalços, pernas para o ar.
Ah, como é bom ficar assim, com o olho preso na televisão. Até chego a sorrir, me deixo sonhar...
Quando minha prestação se for...
Minha casa conseguir pagar...
Se o carro eu não bater...
Se um bandido não me assaltar...
Um dia vou parar mais em casa, da minha casa cuidar...
Ter com meus filhos, mais tempo para conversar...
Deitado no meu amigo sofá, tendo ao meu lado a Dona do Lar...
Com certeza até ouvirei na minha garagem o carro, enfim descansado, respirar.



autor: Paulo de Tarso (taxista)
1º de fevereiro de 2000
Folha do Motorista