"Fechem os olhos, esqueçam seus nomes.
Esqueçam o mundo, esqueçam as pessoas.
Então ergueremos um novo campanário."
As Portas do Delírio
"As luzes foram se apagando.
Subimos a escada íngreme que dava no fundo do palco e tomamos nossas
posições.
Estendi ao máximo a pele da caixa de minha batera, pois os fortes
impactos sempre desapertavam a garra. Olhei em volta e vi Robbie agachado,
tentando desemaranhar os cabos de sua guitarra.
Jim nos checava o tempo todo com olhares furtivos, empunhando o microfone.
Ray curvava-se soturno sobre o teclado e olhou-me de relance no momento em
que:
'Senhoras e senhores: aqui lhes fala Humble Marv da KHJ - a Rádio Boss -
aqui estamos nós... The Doors'
As mãos de Ray preciciptaram-se furiosamente sobre a steclas de seu órgão
VOX e os primeiros acordes de 'When The Music's Over' penetraram-me
profundamente e pareciam estar levando o público à estupefação.
Num pequeno intervalo de silêncio, comecei a repicar fortemente a caixa,
o bumbo e o chimbau: SNAP-BA, BUM Rap BAP - HSSST BUM... BRAP! A cada batida
minha, a tensão na sala aumentava.
De repente, parei. Esperei e esperei:
Este momento era totalmente meu. Permaneci em silêncio, até que a tensão
atingisse seu ponto culminante. Por fim, soltei o xamã que existe em mim:
TAT-TAT-TAT-TAT-TAT-TAT-TAT-TAT-TAT-TAT-TAT-TAT-TAT-TAT-TAT-TAT-TAT-TAT-
TAT CRASH!
Como um animal acometido por dor alucinante, Jim vociferou seu grito
primal, no momento em que a guitarra de Robbie emitia uma nota sinousa, grave
e angustiada.
Jim então gritou:
E e e e e e e e e e e e e e e e e - aaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhh,
When the music's over
When the music's over
Yeaaaaah
When the music's over
Turn out the lights
Um silêncio profundo abateu-se sobre a platéia. Rodopiei as baquetas
sobre minha cabeça e golpeei os tambores, enquanto Robbie rugia seu solo de
guitarra, que mais parecia uma cobra sendo sufocada.
EEEEEEEEAAAAAAAAAAHHHHHHHHHH!
Outro grito primal. Numa linguagem ininteligível e obcena, Jim
manifestava seu desprezo pelo público.
O grito rebelde incendiou-nos. Explodiam os riffs da guitarra de Robbie.
Ray entrou no transe hipnótico de Robbie, enquanto eu empurrava o solista,
sempre tangenciando o abismo.
A acústica daquela sala lotada não ajudava muito, mas a multidão parecia
nos estar venerando. Seria nossa jogada com o perigo que os estaria levando
àquele delírio coletivo? Ou talvez pudesse ser a altura demasiada do palco?
Qualquer que fosse a razão, enquanto Jim provocava a platéia, percebi
que finalmente tínhamos saído do amadorismo e fazíamos agora grandes concertos.
Terminamos o primeiro número e recebemos um aplauso razoável. A platéia
nos observava atentamente, especialmente a Jim. Eu sabia que havíamos causado
boa impressão, estava estampado em sua face.
Robbie começou a tocar 'Back Door Man' na sua pesada e contundente
guitarra solo. Entrei com os bumbos. Era óbvio que Jim adorava cantar os
blues. Aqueles blues autênticos, interioranos, consistiam na forma mais
dramática com a qual sabia lidar com sua dor. Eram a válvula de escape mais
eficiente para sua ira acumulada.
'Nossa Senhora'! Jim caiu fora do palco!
A platéia amortizou sua queda e tentava feericamente condizi-lo de
volta à cena. Mas o palco era muito alto e ela não conseguia.
Enquanto isso, mantínhamos o ritmo e quando Jim finalmente conseguiu
voltar, ele agarrou o microfone e o público respondeu com uma intensa vaia.
Eu não conseguia parar de rir.
Terminamos as cinco músicas (de dez a quinze minutos cada) e, ao saírmos,
comecei a imitar Ed Sullivan:
'Que show!'
'Que show!'"
John Densmore, no livro Riders on the Storm, 1991)
The Doors foi um grupo que formou-se conceitualmente, contra todos os padrões
musicais vigentes em 1965, época em que surgiu. Uma combinação das letras
escritas por Jim Morrison, poesia contundente, emblemática e surreal, que
tratava de temas estranhos à música pop, colada nos sons dissonantes da
batida de jazz da bateria de John Densmore, na guitarra cristalina de Robbie
Krieger que misturava influências jazz e flamenco, e nas improvisações
melódicas elípticas dos teclados de Ray Manzarek, que tinha tudo para permanecer
eternamente no underground musical de Los Angeles, onde os Doors estiveram
mergulhados durante seus dois primeiros anos de atividades.
JIM MORRISON é inquestionávelmente a figura central da banda, tanto como
músico, como personalidade. Ele foi e ainda é o principal ponto de atração,
que transformou os Doors num dos mais bem sucedidos e influentes grupos de
rock de todos os tempos. Morrison nem sequer era um "músico" - ele nada
sabia de música, era um ignorante em relação à técnica, mas era um intérprete
excepcional, com seu talento natural para o canto, além de ser um performer
espetacular, com uma presença cênica original, única e impressionante.
Morrison, nascido James Douglas Morrison, na Florida, em 8 de dezembro
de '43, veio de uma família com larga tradição militar. Filho de um oficial
da marinha americana, viveu em várias cidades, na medida em que seu pai era
transferido de uma base para outra. No começo dos anos 60, depois de estudar
psicologia na Florida, decidiu estudar cinema na Los Angeles Univertsity,
UCLA, onde encontrou Ray Manzarek, que além de se interessar por cinema,
tinha uma sólida formação como pianista clássico. Manzarek na época tocava
jazz-boogie nos bares e fazia parte do grupo musical pop Rick & The Ravens.
Já a "banda de jazz" onde Manzarek tocava, não tinha nome, por não ser
exatamente uma banda organizada, mas uma turma de cinco músicos, com piano
(Manzarek), bateria (Ed Cassidy, que depois formou Spirit), trumpete, sax e
baixo, que gostava de se encontrar e tocar ao vivo. A "estréia" de Jim
Morrison como cantor, se deu numa dessas sessões, em meados de '62, num
café-bar de Los Angeles chamado Mother Neptune's, um local que conservava
o clima beatnik dos anos 50.
EM '63, Morrison fez uma viagem nostálgica a Washington, DC, onde
passou parte de sua adolescência, e voltou a percorrer os bares onde se
tocava jazz e blues - reacendeu sua paixão pela música negra e decidiu
formar com Manzarek um grupo musical que pudesse reproduzir aquele tipo de
música. Antes do grupo existir, o nome já estava escolhido, The Doors, uma referência à poesia de William Blake e à prosa
de Aldous Huxley, que eram muito conhecidos e apreciados entre os jovens
intelectuais e universitários, devido às experiências com drogas alucinógenas
que narravam nos seus livros - o nome era uma referência direta ao livro de
Huxley, As Portas Da Percepção, onde o autor conta as suas experiências com
mescalina. Pouco antes da decisão de formarem os Doors, Manzarek tentou
integrar Morrison ao Rick & The Ravens, por ter ficado muito impressionado
com as "letras de músicas" que ele lhe havia mostrado - na verdade, as
"letras" eram versos extraídos dos seus poemas. Morrison não foi aceito pelo
grupo por causa de sua inexperiência musical e por ser tímido demais ao cantar
em público.
COM OS DOORS ainda em fase de gestação, apareceu John Densmore, que
na época tocava num grupo de acid folk chamado The Psychedelic Rangers - o
termo "psicodélico" ainda não tinha se banalizado, derivava de LSD, o ácido
lisérgico, e de outras drogas químicas alucinógenas que rolavam soltas e
somente seriam proibidas em meados de '66. O lugar onde Manzarek e Morrison
o conheceram não podia ser mais apropriado: numa palestra proferida pelo
guru Maharishi Maheshi Yogi, que dois ou três anos depois tornou-se numa
espécie de super-star da meditação transcendental. Mal o trio fez os primeiros
ensaios e já gravaram a primeira fita de demonstração com cinco músicas,
todas escritas por Morrison, que não sendo músico, sem saber tocar qualquer
instrumento, usava a intuição, criando as melodias inteiramente na cabeça.
Moolight Drive, My Eyes Have Seen You, End Of The Night, Summer's Almost Gone
e Hello I Love You, apenas com vocal, piano e bateria era uma tentativa de
colocar juntos música e poesia, o que não era nenhuma novidade, depois de
Bob Dylan e Simon & Garfunkel, porém não aquele tipo de poesia. A fita foi
recusada por todas as gravadoras.
Alguns meses e muitos ensaios depois, conseguiram um contrato de seis
meses com o selo Columbia, através de Billy James, que havia se tornado a
banda americana de rock de maior sucesso. James exigiu que os Doors
arranjassem um guitarrista e foi assim que Densmore trouxe Robby Krieger para
os Doors, um amigo das sessões de meditação transcendental, que casualmente
tocava guitarra, sendo um diletante entusiasta dos estilos flamenco, clássico
e jazz. Manzarek, Densmore e Morrison o admitiram nos Doors impressionados
pelas suas duas principais influências, Django Reinhardt e Wes Montgomery,
conforme Krieger orgulhosamente admitiu ao comparecer para o teste sem sua
guitarra.
EMBORA OS DOORS na Columbia tenham ficado durante todo o segundo
semestre de '65 sob a proteção de Billy James, nada foi gravado. Novamente
sem contrato, começaram '66 tocando num clube underground da Sunset Boulevard
em Los Angeles, o London Fog, onde deram forma definitiva ao seu estilo, que
encantava alguns e horrorizava outros. Além dos originais de Morrison,
incorporavam ao repertório vários blues recolhidos do repertório clássico do
gênero, principalmente do blues elétrico de Chicago e alguns covers de gravações
mais recentes, como Gloria, de Van Morrison/Them.
Durante os meses em que ocuparam o palco do London Fog, Morrison se
transformou do cantor tímido, frágil e vacilante que era, para o performer
visceral, sensual e incendiário que fez história - já nessa época começava
a criar em torno de si a aura de símbolo sexual que muito lhe atrapalhou,
desviando a atenção crítica do artista sério, como desejava ser visto. A
residência no London Fog, também lhes deu um fã de peso, o músico Arthur
Lee, líder do Love, já na época um dos músicos mais respeitados de Los
Angeles. Foi Lee quem levou o presidente da Elektra, Jac Holzman, para vê-los
ao vivo no London Fog, Holzman, através de sua gravadora Elektra, promovia
uma revolução na música popular americana, com a revelação de talentos
como o próprio Love de Arthur Lee, Judy Collins, Tom Rush, MC 5 e Tim
Buckley, contratou os Doors e colocou Paul Rotchild para produzi-los.
NO FINAL de '66 os Doors foram par aum clube melhor, o lendário
Whiskey A Go-Go, justamente para substituir o Love. A platéia que assistia
os Doors desde o início e formava seu primeiro núcleo de fãs, era formada
por hippies, drogados, místicos, artistas e malucos de todo o tipo que
habitavam o circuito subterrâneo dos bares de Los Angeles. Já no Whiskey
A Go-Go, eles alcançavam outro tipo de público, jornalistas, artistas de
projeção, a alta classe média, gente formadora de opinião. O impacto que os
Doors provocaram na mídia de Los Angeles a partir das primeiras apresentações
no Whiskey A Go-Go foi imediato e intenso; Rotchild para não perder o momento,
levou os Doors para o estúdio e gravou todo o repertório da banda em apenas
seis dias. Mais uma semana para as mixagens e escolha das músicas e o primeiro
LP, The Doors, estava pronto.
Em janeiro de '67 saía o álbum juntamente com um compacto tirado desse
disco, Break On Through / End Of The Night, acompanhado de um filme promocional,
uma espécie de ancestral do video clip. A estratégia de usar filme promocional
para divulgar uma música era na época bastante incomum.
ROTCHILD não desanimou diante do fracasso do primeiro single e editou
o segundo, também tirado do álbum. A faixa escolhida, Light My Fire, escrita
por Robbie Krieger, foi encurtada dos quase sete minutos originais para três
e acabou permanecendo 17 semanas nas paradas, atingindo o primeiro lugar em
junho de '67, levando a popularidade dos Dorrs para muito além do underground
e da faixa de rádio FM (em '68, Light My Fire regravada por Jose Feliciano,
votlaria a fazer um enorme sucesso em todo o mundo). O álbum de estréia dos
Doors foi finalmente notado pelo público depois da revelação do primeiro hit
e foi aos poucos escalando as paradas, chegando ao 2º lugar e ganhando o
prêmio como disco de ouro, em novembro do mesmo ano. Além de Light My Fire, o
álbum trazia uma seleção de originais com a poesia poderosa de Morrison
debruçada sobre temas como o sexo e a morte, covers de blues e Kurt Weil e
seu ponto alto era o épico psicossexual The End encerrando o disco, com mais
de dez minutos de duração, com letra dramática/edipiana de Morrison, que
gerou muita polêmica, e estrutura melódica hipnótica, que no final dos anos
70 serviu de tema no formidável Apocalypse Now, a grande obra cinematográfica
de francis Ford Coppola sobre o horror da guerra, vindo a instigar o maior
de todos os revivals dos Doors, por coincidir com a edição do best-seller
escrito por Danny Sugarman e Jerry Hopkins No One Here Gets Out Alive,
enfocando os Doors biograficamente.
AO CONTRÁRIO do primeiro álbum, montado às pressas, o segundo álbum
foi editado com mais elaboração e cuidado em agosto de '67, com as músicas
(todas originais) mais bem gravadas e produzidas e uma das mais belas capas
já criadas para um disco. Conceitualmente concebida, a foto da capa inspirada
na canção People Are Strange, mostra figuras circenses desfilando numa rua,
enquanto que a imagem da banda e o nome do álbum, Strange Days, somente são
revelados num discreto cartaz colado numa parede. Capas e álbuns conceituais
estavam ainda longe de ser um lugar comum, conforme veio a se tornar nos anos
seguintes. Strange Days chegou ao 3º lugar e os dois compactos que lhe foram
extraídos People Are Strange / Unhappy Girl (12º lugar) e Love Me Two Times /
Moolight Drive (36º lugar), também lançados em '67, consolidaram o grande
sucesso que a banda tinha se tornado; repetindo o formato do disco anterior,
Strange Days se fecha no clímax de uma faixa com mais de dez minutos de
duração, When The Music's Over. Foi também produzido por Paul Rotchild, que
mais recentemente confessou que antes de produzri os Doors, não acreditava
que eles chegassem a ter êxito, com sua música de texto difícil, intelectual,
e seu som totalmente fora dos padrões.
JÁ NESSE COMEÇO de sucesso, Morrison adotou o traje de couro que virou
sua marca registrada e a identidade de Lizard King ("rei lagarto") e referia-se
a si mesmo como Mr. Mojo Risin' (a expressão além de ser um anagrama de Jim
Morrison, é um sinônimo de bruxaria ou feitiço, no sul dos EUA).
Independente dos Doors, Morrison começava a ser promovido como ídolo de massa,
aos poucos sua imagem foi manipulada para ser transformado no grande sex-symbol
masculino da América, além dos limites da músicca pop. Revistas para dolescentes
não resistiram em promovê-lo como o mais banal teen-idol, desvinculando sua
imagem da música que produzia, que pelas suas mensagens e significados, não
era exatamente adequada para teenagers, muito pelo contrário. Rapidamente, as
platéias que acompanhavam a banda nas suas apresentações ao vivo se expandiram
e os Doors passaram a se apresentar em estádios, nos grandes ginásios de
esportes e em locais abertos que pudessem comportar as grandes multidões que
corriam para vê-los. Sempre com lotação total, os shows consolidaram os Doors
como a melhor banda americana ao vivo, a resposta que os EUA estavam esperando
há anos para dar aos Beatles e Rolling Stones - e Jim Morrison como seu melhor
performer. As milhares de meninas na semi-inocência da puberdade, que gritavam
histéricas por Morrison durante os shows, nem desconfiavam dos demônios escondidos
por trás daquela cara de anjo.
NO FINAL DE '67, em 9 de dezembro, aconteceu o primeiro incidente
grave em show dos Doors, que iria se desdobrar em muitos aborrecimentos para
o grupo e se tornar rotina: em New Haven, Connecticut, irritado com um policial
que instantes antes do show o teria empurrado, Morrison iniciou a apresentação
com um violento discurso, não contra o policial que supostamente o agrediu,
mas contra todo o sistema policial. O ambiente já naturalmente tenso, ficou
ainda mais, quando todo o corpo policial que estava ali presente para garantir
a segurança do espetáculo se aproximou do palco. Morrison continuou insultando-os
e quando um oficial subiu no palco, Morrison lhe atirou um microfone no rosto.
Imediatamente outros policiais subiram no palco e o prenderam. A cena, filmada
em Super-8 por um fã, foi descoberta mais tarde e incluída no vídeo Dance On
Fire. Lillian Roxon, então editora da 16 Magazine, narrando o incidente,
escreveu que "no momento da prisão, Jim era como um anjo crucificado, ou São
Sebastião".
ERA EVIDENTE que avesso a qualquer forma de disciplina e mantendo
desde a adolescência um desrespeito radical por tudo que representasse o
autoritarismo, Morrison não poderia ser moldado e dirigido como um artista
comum - ele viva à beira do caos e por qualquer motivo, as coisas saíam de
controle. Nos shows ele se apresentava quase sempre embriagado, fato
escondido pela imprensa inutilmente, pois ele publicamente fazia apologia do
álcool dizendo ser, em suas próprias palavras, "um hábito integrado à cultura
americana". garrfas de whisky inigravam dos camarins e acabavam esvaziadas
no palco, nos intervalos das músicas. O uso do álcool foi constante na vida
de Morrison - desde os primeiros ensaios pelo menos, ele bebia álcool
misturado a comprimidos para se descontrair.
EM 1968, ano em que vários fatos políticos abalaram o mundo, como a
rebelião estudantil, a intensificação da guerra do Vietnã, os assassinatos
de Robert Kennedy e Martin Luther King, os Doors editaram o álbum Waiting
For The Sun e o compacto The Unknown Soldier, um libelo contra a loucura da
guerra, e um filme promocional que mostra Morrison sendo fuzilado e deixado
morto coberto de sangue. Assustada com a violência explícita do filme, a
Elektra o vetou, só sendo liberado muitos anos depois para edição em vídeo.
Além de The Unknown Soldier o álbum tinha como ponto alto outro poema épico
de Morrison, chamado Celebration Of The Lizard. Com Waiting For The Sun os
Doors conformaram sua disposição em anarquizar o tempo das músicas, que antes
deles muitos raramente chegavam aos três minutos. Banda formada nos porões,
calcada no improviso, misturavam faixas muitos longas, com outras bem curtas
no mesmo álbum, sem estabelecer qualquer padrão.
O próximo single editado, para a surpresa de todos, foi o mais pop de
todos que os Doors lançaram, Hello, I Love You, com melodia similar a um hit
dos Kinks, All The Day And All Of The Night, e letra simplória, tangenciando
o estilo bubblegum. Em julho de '68, Hello, I Love You, se tornava o segundo
compacto de sucesso dos Doors a chegar ao 1º lugar.
O gigantismo dos concertos, a exploração de sua imagem como "mito sexual",
a exposição exagerada na mídia, começava a cansar e deixar Morrison
insatisfeito e revoltado. Em dezembro de '68, no Hollywood Forum, desiludido
com a platéia que não parava de gritar pedindo Light My Fire, ele foi até o
microfone, ficou imóvel e quando todos silenciaram, recitou seu poema épico
Celebration Of The Lizard, agradeceu e se retirou. Apanhado de surpresa, o
público deixou que ele se fossem sem nenhum aplauso ou vaia.
NO ANO SEGUINTE, o fiasco artístico do álbum Soft Parade. Editado em
julho de '69, depois de ter sido trabalhado em estúdio durante quase um ano,
Soft Parade decepcionou e causou embaraço pela falta de inspiração e energia.
É um álbum pueril, pretensioso e confuso, que somente se sustentou devido à
popularidade que a banda desfrutava. Um compacto tirado desse disco, Touch Me,
chegou ao 3º lugar. Antes da edição de Soft Parade, havia acontecido o célebre
incidente em Miami, Florida, em 1º de março, no Dinner Key Civic Auditorium.
Todos os shows dos Doors eram acidentados e polêmicos, mas este ficou marcado
pela acusação de atentado ao pudor contra Morrison feita pela própria polícia.
Até hoje não se sabeo que realmente aconteceu no palco naquela noite.
Visadíssimo pela polícia, é possível que Morrison tenha sido vítima de uma
armação; das milhares de fotos existentes feitas pela mídia que cobria o
espetáculo, nenhuma mostra qualquer indício de Morrison se desnudando ou
fazendo gestos obscenos, conforme acusação feita pela polícia, mas as reações
foram as piores possíveis - os protestos dirigidos pelas associações
moralistas e as críticas pesadas que vieram por parte da imprensa, fizeram
com que 27 shows agendados fossem cancelados. Num instante, Morrison
tornou-se a vítima principal dos pichadores profissionais que passaram a lhe
tratar como o maior dos idiotas. No inferno astral que envolveu os Doors no
ano de '69, talvez o único fato positivo, que fez bem a Morrison, foi a
edição dos seus dois livros de poesias, The Lords e The New Criatures. Ainda
no final desse ano, Morrison foi preso por bebedeira e desordem, ao infringir
uma lei federal, por provocar tumulto durante um vôo para Phoenix, Arizona,
onde pretendia assistir os Rolling Stones.
O ANO DE 1970 começou com os Doors dispostos a gravar seu álbum ao
vivo que a Elektra vinha cobrando há muito tempo e editar um novo disco de
estúdio capaz de apagar a má impressão deixada por The Soft Parade. O álbum
ao vivo, previsto para ser editado no meio do ano, foi gravado no Madison
Square Garden, com Morrison mais contido, cantando com menos displicência
do que vinha fazendo nos shows nos últimos dois anos. Em fevereiro de '70
saiu Morrison Hotel, um álbum básico, onde os Doors se livravam dos arranjos
orquestrais, das suítes, das introduções intermináveis, de tudo que era
conceitualmente errado e poluía o álbum anterior. Morrison Hotel misturando
rock pesado e blues a uma poderosa percussão, promoveu as pazes dos Doors
com a imprensa e com seusfãs mais antigos, que tinham se afastado por causa
das legiões de fanáticos de última hora e mostrou ser seu álbum mais simples
e despojado desde The Doors, o LP de '67. A idéia do nome veio de um hotel
de beira de estrada, descoberto ao acaso, cuja fachada aparece na capa do
disco. Algumas das mais memoráveis músicas dos Doors, como Roadhouse Blues,
You Make Me Real, Queen Of The Highway, Indian Summer e Blue Sunday ajudam a
fazer de Morrison Hotel um indiscutível clássico. É também o álbum que marca
o retorno do lendário guitarrista Lonnie Mack (tocando baixo). Mack, depois
de anos vivendo retirado em Indiana, foi redescoberto e voltou a gravar
pela Elektra.
ENQUANTO o álbum ao vivo (duplo) Absolutely Live era editado em
julho, os Doors excursionavam pela Europa e participavam de eventos importantes,
como o concerto no festival da Ilha de Wight em agosto, na Inglaterra. Foi
também quando Morrison começou a dizer que desejava abandonar tudo pela
literatura ou pelo cinema. Em novembro terminaram as gravações do novo álbum
de estúdio, L.A. Woman, que seria o último dos Doors com Jim Morrison, que
nessa fase bebia mais e mais, tornando-se uma ruína física, inchado, com uma
barba descuidada que cobria todo o rosto eleito até pouco tempo, pela revista
Cosmopolitan, o mais belo da América. Ele havia entrado num processo de
autodestruição sem volta, mesmo sua voz havia mudado, conforme está registrado
em L.A. Woman, pastosa, arranhada, quase irreconhecível.
NO DIA DO SEU 27º aniversário, em 8 de dezembro de '70, Morrison
entrou em estúdio pela última vez para gravar sozinho, alguns dos seus poemas
declamados, que em '78 foram editados coletivamente no álbum, An American
prayer, que pode ser interpretado como um desagravo ao músico que durante
toda sua cida quis ser reconhecido como poeta e escritor, ou como um epitáfio
para a banda de rock mais corajosa, ousada, delirante e inteligente dos anos
60, uma vez que os músicos remanescentes, Krieger, Densmore e Manzarek
acrescentaram música composta especialmente para servir de fundo ao texto
recitado por Morrison. Quatro dias depois,na noite de 12 de dezembro, os
Doors fariam seu último concerto com sua formação original, em New Orleans,
Louisiana; do meio para o fim do show, Morrison perdeu o fôlego e mal conseguiu
falar as letras das músicas. Depois do espetáculo, Morrison deu nova declaração
reafirmando que estava abandonando a música, só que desta vez, era para valer.
EM MARÇO DE '71, enquanto L.A.Woman era editado recebendo as melhores
críticas, Morrison viajava para Paris onde pretendia morar e se dedicar à
música e ao cinema. Partiu acompanhado de sua namorada de longa data, Pamela
Courson. Tomando a capital francesa como base, onde dividiam uma casa alugada,
desligados do assédio da imprensa, Morrison e Pamela viajaram para vários
países da Europa e do oriente. Em julho, no dia 3, Morrison foi encontrado
morto dentro de uma banheira, em um hotel de Paris, vítima de um ataque
cardíaco. A notícia não foi divulgada de imediato. Os rumores foram aparecer
dois dias depois e após vários desmentidos, as autoridades francesas foram
confirmar oficialmente a história, somente no dia 9. Suspeita-se que na
verdade o ataque cardíaco tenha sido conseqüência de uma overdose de heroína,
hábito que tinha adquirido recentemente. Pamela também estava viciada em
heroína vindo a morrer três anos depois. Bill Siddons, empresário dos Doors
na época, declarou que a demora em confirmar a morte de Morrison foi
proposital, para não transformar o sepultamento, feito em Paris, no Cimetière
Du Père-Lachaise, em um "espetáculo circense" (sic), conforme havia
acontecido com Janis Joplin e Jimi hendrix.
ALGUMAS perguntas jamais respondidas ficaram no ar, envolvendo a
morte de Morrison com um toque de mistério. Por que o consulado americano na
França levou dias para confirmar a morte de Morrison, mesmo inquirido pelas
mais poderosas agências de notícias do mundo? Por que as autoridades
francesas e americanas não tinham o registro de sua presença naquele momento
na França? Por que o corpo não foi enviado para os EUA? Se eles tinham uma
casa alugada, por que foram dormir num hotel na mesma cidade? Por que Pamela
Courson jamais falou do assunto?
OS DOORS tentaram seguir adiante sem Morrison, mas desistiram depois
de dois LPs anêmicos. Também se cogitou a substituição de Morrison por Iggy
Pop, mas a idéia felizmente não foi adiante. A música dos Doors e a poesia de
Morrison continuam a viver nos constantes relançamentos e no interesse
renovado das novas gerações de fãs do rock, como se nenhuma tragédia tivesse
acontecido: depois de escrever um capítulo inteiro na história da música
pop, os Doors ganharam a eternidade da forma como as lendas do rock deveriam
ser sempre cultuadas, com energia, vida e a beleza da juventude.
PARIS 1975
John Densmore
"Parecia que vinha chuva. Torci para que uma forte tempestade se
precipitasse, pois assim não teria de visitar sua cripta. Minha freqüência
cardíaca acelerou. Olhei para Robbie, Danny Sugerman e Hervé Muller que
estavam no carro, quando nos aproximávamos do cemitério. Estavam todos inquietos.
As altas muralhas de pedra nos espreitavam, como se estivessem resguardando
algo ancestral e misterioso. Ao entrarmos, um "gendarme" do tipo daqueles dos
filmes de Chaplin perguntou-nos aonde íamos.
"Sabe onde fica a tumba de Jim Morrison?"
"Ah, mas oui! 'Monsieur Morrison' está no alto da ruela de
paralelepípedos. Podem ficar tranqüilos: os grafites os levarão lá. Muitos
foram removidos recentemente e espero que vocês não contribuam com mais
alguns. D'accord?" A ruela ficava cada vez mais íngreme. Passamos por centenas de criptas
cobertas pelo musgo. Uma névoa espessa e úmida nos envolveu, enquanto éramos
seguidos por uma verdadeira multidão de gatos que perambulavam pelas tumbas.
O cemitério mais famoso da Europa, o Père Lachaise, é um verdadeiro albergue
para milhares desses felinos.
Jim decerto estaria adorando este tipo de companhia. Mas me parecia estranho
que o bom nino da Flórida estivesse aqui. Só esperava que ele não tivesse
planejado detalhadamente isso tudo.
As lápides centenárias indicavam as famosas presenças de Oscar Wilde,
Balzac e Chopin. Continuamos a caminhar e, de repente, observamos um grafite
que dizia: "Morrison - por aqui". Sobre as criptas, dezenas de outras inscrições
em spray podiam ser apreciadas: "Domínios do Ácido", "Este não é o Fim", "Jim
era Junkie" etc. Comecei a perceber que estávamos nos acercando do local
procurado.
"É por aqui", disse Hervé, um pouco cançado. Procuramos o lugar,
perambulando em círculos entre várias criptas de granito, até que finalmente
encontramos o pequeno retângulo de cimento.
Incrédulo, perguntei: "Mas é isso aqui?" Pensei então, com pesar: teria
sido este o fim do Xamã Elétrico, do Rei do Ácido, do Édipo Rei?
Merda.
Lacrimejante, comentei a Danny Sugerman: "Você agora entende?"
Respondeu-me secamente: "Não tenho a mínima idéia".
"Claro que não", disse-lhe, "você não tocou na banda. Era apenas nosso
divulgador."
Robbie estava quieto num canto e, como sempre, não demonstrava sua
emoção. Nosso guitarrista é muito introvertido. É meu melhor
amigo.
"Como pode Jim caber neste espaço?", comentei jocosamente.
"Ele tinha pelo menos seis pés de altura!"
Neste momento, pensei na veracidade da hipótese de que ele
não esteja morto (ninguém viu o corpo). Decerto, poderia estar
em algum remoto lugar na África, tentando reviver outro mito.
Começou como Dionísio, depois foi Nietzsche e estaria ele agora
sendo Rimbaud?
Silente estava a estela de pedra. Era um silêncio profundo e
provocador.
Começou a cair uma tênue garoa. Senti um calafrio, enquanto
Robbie e Hervé olhavam em torno, nervosamente. Nesse momento,
um jovem guitarrista itinerante aproximou-se e começou a tocar
uma de nossas canções. Na sua mochila, estava afixado um grande
adesivo "The Doors":
Não há como escapar."